Fugindo para a infância
No segundo ano eu decidi mudar de turma, para a classe de umas meninas q pareciam ser interessantes. Elas eram três, Laila, Mariana e Tamara (assim, com a sílaba tônica no "ma"). Laila era magrela e se vestia como o povinho alternativo se veste, e ouvia emo (isso na época q o emo não era idiota e comum). Mariana era muito bonita, inteligentíssima e tinha namoros estranhos (eu acho q ela arrumava namorado na frente a igreja evangélica pq, putaqpariu!, todos eram crentes). Tamara era obesa, tinha uma autoestima baixíssima e compensava o medo de ser rejeitada sendo grossa e fazendo brincadeiras estúpidas com os outros. Tamara mexia com teatro e tinha um namoro estúpido e autodestrutivo com Jair, nosso professor porra-louca de física. O Jair judiava horrores da Tamara, ficando com outras meninas (inclusive a Gisele da nossa sala), dando em cima de todas as alunas do colégio (em especial, as gordinhas, como eu) e fazendo a Tamara ir para a cama com outras meninas. Acho q ela só ficava com ele pq achava q ninguém mais iria querer ela. Mas foi da Laila q eu fiquei mais amiga. Nós escrevíamos todos os dias cartinhas uma para a outra, trocávamos cds gravados com as coisas q gostávamos de ouvir e conversávamos muito. Um dia, o professor parou a aula por uma bagunça besta qquer e mandou três alunos saírem da sala. Nunca tinha reparado neles antes (e olha q tinham poucos alunos na classe). Eles eram o Pedro Simões, "Chicão" (q o nome todo era "Fernando Franscisco Miranda Correa de Guamá") e o Thiago. Esse último parecia ter uns 11 anos de idade, magrelo e branquelo, meio desengonçado como costumam ser os meninos em fase de crescimento q ainda não conseguiram se acostumar com a dimensão repentina q o corpo tomou. Ele tinha o cabelo meio ensebado, liso e preto, na altura do queixo. Pedro era o cala "descolado", "estiloso" q parecia não se importar com nada e era metido a intelectual. Chicão era dramático, sentimental e tinha o costume de se cortar durante as aulas com estilete. Eu sinceramente achava aquilo patético, acreditava q ele só fazia aquilo para aparecer, e os ferimentos eram tão superficiais q sumiam dentro de uma semana. Assim q eles voltaram para a sala, na aula seguinte, pensei em me enturmar com eles. E assim eu fiz, na hora do intervalo. Descobri q eles gostavam de animes e mangás, e comecei a andar mais com eles e me interessar pelas coisas japonesas q eles se interessavam. Em pouco tempo eu sabia razoavelmente bem sobre cultura japonesa, animes, mangás, música pop japonesa etc. E fiquei louca pelo Thiago. Eu, q nunca fui santa, o assediava e cheguei a bulinar o moleque no cinema. Ele, embora fosse santo, não se opôs em momento algum. Nós tínhamos um mundo aparte em q nós agíamos como personagens dos desenhos japoneses q assistíamos. Era tudo muito surreal, olhando agora para trás. Nós falavamos com aquelas vozes esganiçadas, era bastante patético. Eu tanto dei em cima do Thiago e tanto o assediei (abertamente, tornando a situação bem cômica mesmo) q o primeiro beijo dele foi comigo. Aí perdeu a graça. Nas férias de julho eu viajei com minha mãe e o Roberto para a casa da mãe do Roberto no Rio de Janeiro. Eu e o Marcus estávamos meio frios um com o outro. Não nos falamos durante essa minha viagem e, quando eu cheguei, nós terminamos o namoro. Não tinha acontecido nada, exatamente, para nós terminarmos (era comum eu ficar com outras pessoas, na verdade, embora ele não soubesse de nada - acho q nem desconfiava) mas as coisas tinham perdido o glamour entre nós. Nos separamos de bem, sem raiva um do outro. Não sei pq nós não mantivemos contato depois disso. Naquele ano de 2002 eu esqueci o tanto q minha vida era trash e o tanto de merda q havia me acontecido. Esqueci q eu tinha aquela dolorosa profundidade e me tornei superficial. E foi bom fugir de mim um pouco. No fim de 2002, quando estava no curso de inglês, ficava muito tempo na biblioteca, q tinha computadores com acesso à internet. Um garoto mais novo ficava lá também, e passou meu e-mail para seu irmão mais velho q morava em Goiânia e também gostava de coisas japonesas.
