Free JavaScripts provided
by The JavaScript Source

Biografia de uma Anônima: January 2007

Biografia de uma Anônima

Friday, January 19, 2007

Fugindo para a infância

No segundo ano eu decidi mudar de turma, para a classe de umas meninas q pareciam ser interessantes. Elas eram três, Laila, Mariana e Tamara (assim, com a sílaba tônica no "ma"). Laila era magrela e se vestia como o povinho alternativo se veste, e ouvia emo (isso na época q o emo não era idiota e comum). Mariana era muito bonita, inteligentíssima e tinha namoros estranhos (eu acho q ela arrumava namorado na frente a igreja evangélica pq, putaqpariu!, todos eram crentes). Tamara era obesa, tinha uma autoestima baixíssima e compensava o medo de ser rejeitada sendo grossa e fazendo brincadeiras estúpidas com os outros. Tamara mexia com teatro e tinha um namoro estúpido e autodestrutivo com Jair, nosso professor porra-louca de física. O Jair judiava horrores da Tamara, ficando com outras meninas (inclusive a Gisele da nossa sala), dando em cima de todas as alunas do colégio (em especial, as gordinhas, como eu) e fazendo a Tamara ir para a cama com outras meninas. Acho q ela só ficava com ele pq achava q ninguém mais iria querer ela. Mas foi da Laila q eu fiquei mais amiga. Nós escrevíamos todos os dias cartinhas uma para a outra, trocávamos cds gravados com as coisas q gostávamos de ouvir e conversávamos muito. Um dia, o professor parou a aula por uma bagunça besta qquer e mandou três alunos saírem da sala. Nunca tinha reparado neles antes (e olha q tinham poucos alunos na classe). Eles eram o Pedro Simões, "Chicão" (q o nome todo era "Fernando Franscisco Miranda Correa de Guamá") e o Thiago. Esse último parecia ter uns 11 anos de idade, magrelo e branquelo, meio desengonçado como costumam ser os meninos em fase de crescimento q ainda não conseguiram se acostumar com a dimensão repentina q o corpo tomou. Ele tinha o cabelo meio ensebado, liso e preto, na altura do queixo. Pedro era o cala "descolado", "estiloso" q parecia não se importar com nada e era metido a intelectual. Chicão era dramático, sentimental e tinha o costume de se cortar durante as aulas com estilete. Eu sinceramente achava aquilo patético, acreditava q ele só fazia aquilo para aparecer, e os ferimentos eram tão superficiais q sumiam dentro de uma semana. Assim q eles voltaram para a sala, na aula seguinte, pensei em me enturmar com eles. E assim eu fiz, na hora do intervalo. Descobri q eles gostavam de animes e mangás, e comecei a andar mais com eles e me interessar pelas coisas japonesas q eles se interessavam. Em pouco tempo eu sabia razoavelmente bem sobre cultura japonesa, animes, mangás, música pop japonesa etc. E fiquei louca pelo Thiago. Eu, q nunca fui santa, o assediava e cheguei a bulinar o moleque no cinema. Ele, embora fosse santo, não se opôs em momento algum. Nós tínhamos um mundo aparte em q nós agíamos como personagens dos desenhos japoneses q assistíamos. Era tudo muito surreal, olhando agora para trás. Nós falavamos com aquelas vozes esganiçadas, era bastante patético. Eu tanto dei em cima do Thiago e tanto o assediei (abertamente, tornando a situação bem cômica mesmo) q o primeiro beijo dele foi comigo. Aí perdeu a graça. Nas férias de julho eu viajei com minha mãe e o Roberto para a casa da mãe do Roberto no Rio de Janeiro. Eu e o Marcus estávamos meio frios um com o outro. Não nos falamos durante essa minha viagem e, quando eu cheguei, nós terminamos o namoro. Não tinha acontecido nada, exatamente, para nós terminarmos (era comum eu ficar com outras pessoas, na verdade, embora ele não soubesse de nada - acho q nem desconfiava) mas as coisas tinham perdido o glamour entre nós. Nos separamos de bem, sem raiva um do outro. Não sei pq nós não mantivemos contato depois disso. Naquele ano de 2002 eu esqueci o tanto q minha vida era trash e o tanto de merda q havia me acontecido. Esqueci q eu tinha aquela dolorosa profundidade e me tornei superficial. E foi bom fugir de mim um pouco. No fim de 2002, quando estava no curso de inglês, ficava muito tempo na biblioteca, q tinha computadores com acesso à internet. Um garoto mais novo ficava lá também, e passou meu e-mail para seu irmão mais velho q morava em Goiânia e também gostava de coisas japonesas.

No reino da futilidade

Uma das coisas mais legais q o Roberto (recaptulando, o namorado da minha mãe) fez por mim foi me dar uma gata. Minha mãe tinha uma imagem péssima de gatos (devido ao Coro, meu gato preto vira-latas de quando eu tinha uns 5 anos), mas o Roberto a convenceu com o argumento q gatos fazem as necessidades na caixinha de areia. O próprio Roberto, filho de uma inglesa, havia tido muitos gatos, jurou q era uma boa idéia. Vimos um anúncio de siamêses no jornal e fomos até lá escolher um. Eu, q sempre adorei bichos, estava muito animada. Chegando lá, tinha uma ninhada de gatinhos, um mais bonito q o outro. Sentei no meio da gataria para observar melhor os filhotes e escolher aquele q eu queria. dado um tempo, um dos filhotes sentou na minha frente e começou a me observar também. Quando eu a peguei, ela miou e começou a me lamber. Era aquela mesmo! Levei ela para casa e a chamei de Gaia (pq eu queria um nome q começasse com "G", fosse pequeno e tivesse predominância de vogais. Abri um dicionário de mitologia grega e lá estava!)No dia 8 de dezembro de 2000 eu fui a uma festa gótica (do pessoal de uma lista de e-mail chamada "goticodf") numa casa noturna chamada Zona Z, q ficava perto do palácio do buriti. A festa foi incrível, conheci muita gente interessante (todos mais velhos q eu) e a música era ótima. E conheci um menino chamado Marcus Vinícius. Ele era, no mínimo estranho. Não estranho no sentido de se vestir de forma excêntrica, ter piercings e tatuagens inúmeras pelo corpo e um cabelo absurdo. Até pq, naquele lugar, nada disso seria estranho. Ele era uma pessoa estranha, mesmo. E começamos a namorar, acho q por solidão de ambos os lados. Ele era pequeno, magro e franzino e eu sempre fui enorme, gorda e sutil como uma vaca. Devia ser um casal engraçado. Ele cursava desenho industrial na UnB, desenhava muito e era uma das pessoas menos verbais q eu já conheci. Tinha um senso de humor q era até chato, meio negro, meio irônico e meio pateta, mas me fazia rir o tempo todo. Na primeira noite q ele dormiu na minha casa, ele teve q dormir num colchão na sala (minha mãe estava meio arrependida de ter me dado tanta liberdade sexual) e ele deve ter passado a noite com a Gaia pulando na cabeça dele. No dia seguinte, quando fui acompanhar ele até o ponto de ônibus (nessa altura, no bairro q nós morávamos já tinha uma lotação q passava de meia em meia hora, para um bairro viziho onde se podia pegar um ônibus para o centro). Vi o carro da vizinha passar, mas não dei importância nenhuma para o fato. Quando voltei para casa minha mãe estava possessa e disse q a vizinha veio contar para ela q eu e o Marcus estávamos fumando maconha no ponto de ônibus. (!!!) Levou um tempão para ela entender q aquilo era loucura (não pq eu nunca faria aquilo, mas pq não era muito do feitio do Marcus, q ela conheceu melhor depois). Assim q meu avô morreu, minha avó veio morar conosco no nosso apto. Nós brigávamos todo o tempo (acho q pq minha avó sempre fazia perguntas demais e dava palpites demais e, mesmo ninguém a levando a sério, eu detestava e não admitia nenhum tipo de controle na minha vida). Ela acabou passando pouco tempo conosco e voltando para a casa dela (pq ela sentia muita falta da casa dela, com os copos e os sofás no lugar q ela quisesse, do jeito q ela quisesse). Nesse tempo, meu namoro com o Marcus foi ficando mais íntimo e intenso. Cerca de um mês depois de começarmos a namorar, resolvi tomar uma iniciativa para começarmos a trepar. E nossa vida sexual era bastante interessante, com um pouquinho de dominação, uns fetichezinhos sadô-masô, umas inversões de papéis... ele se vestia de menina de vez em quando para mim, e eu achava aquilo o máximo. Na época de volta às aulas, o Roberto propôs à minha mãe q me colocassem num colégio grande no centro da cidade, pq eu tinha q parar de freqüentar o DI (e conseqüentemente, parar de beber, usar drogas e andar com pessoas q faziam esse tipo de coisa). Na verdade, eu já não ia mais para o DI, pq as pessoas de lá eram muito burras e não tinham hábito de ler (o q havia se tornado um dos meus passatempos prediletos). Certa vez comentei alguma coisa sobre o Sartre numa "rodinha de vinho" e quase ninguém entendeu do q eu estava falando. Aí eu desencantei. Mas, enfim, mesmo assim fui para o Objetivo, colégio grande e caro no centro da cidade, q o Roberto ajudava minha mãe a pagar. Eu era trash, escrota e tosca. Me vestia esquisitamente e tinha um monte de piercings. Era gorda e usava maquiagem pesada. Não preciso nem dizer q não fui bem recebida por aquele bando de playboyzinhos e patricinhas pagodeiros. E eles eram cruéis. Comecei a me sentir mal com aquele povo me criticando e me excluindo. Mas eu era tão forte naquela época q sentia algo como "Bah, fodam-se eles! Se eles não querem é pq eles são muito pequenos para mim" e acabei conhecendo pessoas lá mesmo q valiam a pena e q me mereciam, como a Jacqueline. Ela era uma branquela, pequenininha e magra, q usava o uniforme dos meninos (um bermudão de tactel azul escuro) com coturno e um spike gigantesco no braço. Ela parecia aquela sailor moon lésbica. E ela me olhava com aquele ar de "Ai, ai, como esse povo é burro" quando eu corrigia alguma informação durante as aulas de biologia e todos riam achando q eu não sabia do q eu estava falando, ou riam pq eu era gorda. Eles eram pequenos para nós. E nós ficamos inseparáveis, uma suportando a outra num mundo hostil de tão estúpido. Como eu não tinha problemas para dizer q eu era bissexual, o preconceito entre o povo do colégio e nós duas era enorme, de forma q até jogaram uma pedra (uma brita, na verdade) nas costas da Jacque durante um recreio. Nessa época a Jacque namorava um idiota (aliás, o gosto dela para homens sempre foi deplorável) q me odiava muito pq eu sempre fazia ela voltar para casa insatisfeita com ele. Eu queria q ela terminasse com ele, claro, e não poupei esforços para tal. Animava ela em relação a outros meninos q me pareciam interessantes para ela, falava mal do namorado imbecil e bundão. Até q ela largou ele. Um dia, numa aula onde juntaram minha turma com mais outra (pq o professor q deveria dar aula para a outra turma naquele horário havia ficado doente) e tivemos aula num anfiteatro. Eu fiquei lixando minhas unhas, como costumava fazer quando ficava entediada. Olhei para uma menina q estava sentada na minha frente e comentei com a Jacque "q menina chata, idiota, parece uma puta, etc etc etc". No fim da aula a menina veio puxar papo comigo e perguntou se eu já tinha visto o filme "A Bruxa de Blair 2". Eu, sem paciência e sem interesse, disse q não. E ela disse q, no filme, uma gótica matava alguém com uma lixa igual a minha. Achei curioso e comecei a olhá-la com outros olhos. A verdade é q ela era muito bonita. Um cabelão enorme, preto e ondulado, pele bronzeada e um corpo perfeito. Ela também era bissexual e questionava como eu podia me dizer bissexual se não tinha transado ainda com nenhuma mulher. Bateu tanto nessa tecla q, uma noite q ela foi dormir na minha casa, transamos a noite inteira. Além de linda, Hellen (esse era seu nome) era de uma femilidade enorme e era uma pessoa muito livre, de tudo. Ela era leve! Ao fim do primeiro ano eu tinha um namorado incrível, uma vida sexual invejável, amigas fiéis. Mas no segundo ano do ensino médio a Jacque e a Hellen tiveram q sair do colégio por problemas financeiros.

Monday, January 15, 2007

M.A.D.

No dia 8 de outubro de 2000, no programa de conversação mIRC, eu estava numas das salas q eu usualmente freqüentar, o #gothic. Comecei a conversar com um cara com nick de Realizer. Ele era profundamente infeliz e solitário, o q me atraía como uma mosca era atraída pelo esterco. Ele dizia não ter esperança, não contar mais com nada. Eu tentava acalmá-lo, dizer q ele tinha a mim (uma estranha q morava longe e q ele só tinha conversado uma vez, pela internet). Ele tinha 21 anos e morava sozinho na Consolação, em São Paulo. Sua mãe morava na Escócia e era casada com um escocês. Seu pai morreu quando ele tinha 5 anos. Ele tentava "não culpar o pai por ter morrido". Não tinha amigos nem familiares. Pouco mais de uma semana depois, estávamos tendo a relação mais íntima e etérea q já tive com alguém. Ele me ensinava coisas. Líamos Nietzsche e discutíamos ocultismo. Ele afirmava q tinha pouco tempo, q já havia aprendido tudo o q um ser humano deveria aprender em vida e q, brevemente, transcenderia. Faltava-lhe apenas aprender uma coisa: o amor incondicional. E era por isso q eu havia aparecido na vida dele, ele acreditava. E quando ele aprendesse a me amar incondicionalmente, sua glândula pineal se abriria e a existência não seria mais útil, então ele se juntaria a Eles (entidades sobrehumanas encarregadas de observar a evolução dos humanos em sua vida terrena). Eu tomava aquelas teorias como verdadeiras e seguia tudo o q ele achava correto. Questionar todas as minhas certezas, nunca estagnar. Ele me pediu q eu nunca me matasse. Eu deveria ser forte e atingir excelência em todos os testes q Eles aplicavam. Cogitei a possibilidade de fugir para SP para conhecê-lo. Ele me enviaria o dinheiro das passagens e eu ficaria na casa dele, só faltava alguma desculpa para dar para a minha mãe. Nós passaríamos alguns dias juntos e eu voltaria para casa. Mas me faltou coragem. Marco Antônio - o Realizer - ficou chateado, mas logo decidiu q viria até Brasília. Dia 18 de novembro, ele chegou em Brasília. Me ligou pela manhã dizendo em qual hotel estava hospedado. Quando cheguei lá e subi até o andar q ele estava (o quinto, pq Marco tinha pala com o número 5, q era 2+3 para ele, e representava a condição humana de dualidade e de plenitude, respectivamente). Ele me esperava no corredor, com a luz do Sol q entrava pela janela atrás dele, fazendo com q a cena tomasse aparência de sonho. Nosso medo era q ele moresse assim q nos víssemos, q ele "transcendesse" quando nos beijássemos. Mas isso não aconteceu, claro. Andei até o final do corredor, onde ele estava e nos abraçamos. Acho q, naquele momento, quem transcendeu fui eu. Ficamos abraçados por um tempão, e nos beijamos. Cara, como eu estava nervosa! Entramos para o apartamento e fizemos sexo por horas, de uma forma muito íntima para duas pessoas q tinham conversado por um mês e dez dias. Ele era extremamente carinhoso e se importava com tudo o q eu dizia, e para mim nada poderia ser mais delicado do q isso. Eu sempre fui extremamente comunicativa, muito verbal, a verborragia em pessoa. E sempre tive a necessidade de ter alguém q prestasse atenção em tudo o q eu faço e digo. No dia seguinte, fomos à casa dos meus avós, para q eles conhecessem o Marco. Acho q foi o único namorado meu q meu avô não fez cara feia. Marco e minha avó conversaram por horas. Minha mãe o achou "metido", ela me disse depois. Mas ele tinha um ar meio etéreo, na verdade. E era incrivelmente bonito. Alto, magro, pele branca e cabelos lisos e pretos na altura do ombro. E extremamente educado, inteligente etc etc etc. Eu não teria adjetivos o suficiente para dizer tudo o q ele era, mas ele era tudo o q eu precisava. Dia 20 de novembro de 2000, aniversário da minha mãe e segunda-feira. Eu e minha mãe fomos almoçar (em comemoração do aniversário dela) na casa da minha avó. Meu avô havia saído para marcar uma consulta para minha avó num hospital psiquiátrico, não chegou a tempo de almoçar conosco. Almoçamos e minha mãe foi trabalhar, e eu, teoricamente, devia ir para a escola. Peguei o dinheiro q meu avô sempre deixava para mim e fui até o centro da cidade, onde ficava o hotel em q o Marco estava hospedado. Nos encontramos na frente do hotel e fomos passear pela cidade. Fomos a um templo, q fica do lado do cemitério, passeamos pelo cemitério, passamos o dia inteiro andando e conversando. Ficou tarde, ele me levou até o bairro da casa dos meus avós, e nos despedimos numa rua perto da praça do DI (ele voltaria para SP naquela mesma noite). No nosso último beijo ele me revelou um segredo: ele nunca havia beijado ninguém antes. Não sei direito o q senti diante disso. Mas fui para casa dos meus avós. Chegando lá, o carro da minha mãe estava parado na calçada (o q era estranho, pois ela não deveria estar lá (eram umas 20 horas). A casa estava cheia de gente (e nunca ninguém recebia visitas), quando me viram no portão foi uma bagunça de gente gritando "A Taís está chegando!" e foi muito confuso. Minha mãe veio até o portão e falou uma frase q nunca vai sair da minha cabeça "Seu avô morreu hoje de tarde, agora entra lá e se esforça para derramar pelo menos uma lágrima". Às vezes penso: o q leva minha mãe a ser tão tosca em momentos tão delicados? Meu avô era uma pessoa incrível, todos da vizinhança o adoravam. Ele sempre fez um papel de pai para mim (principalmente por eu não ter tido pai), sempre me mimava, me dava coisas, me protegia quando minha mãe queria me bater... Mas eu não chorei. Não derramei a lágrima q era tão importante para minha mãe. Pelo contrário, eu fiquei perplexa por muito tempo. Só queria saber como era morrer. Tentava entender como era esse negócio de um dia estar vivo e, no outro, não está mais e todos têm q se organizar para fazer as coisas q vc costumava fazer (de aguar as plantas até cuidar da minha avó, já muito doente). E, por eu não ter chorado, as pessoas me recriminaram, durante anos. "Ah, mas seu avô era tão bom para vc, pq vc não está triste?" E eu entendi q nem sempre q se está triste se chora e nem sempre q se chora vc está triste. Eu sentia uma dor tão "dilacerante" (essa palavra existe?) q eu não conseguia chorar. Ficava em estado de choque e não conseguia liberar nada daquela enorme tensão q havia dentro de mim. Não sentia vontade de gritar, de me mutilar, de chorar, de xingar as pessoas... nada! Só queria ficar dentro da minha cabeça, para sempre. Logo depois disso, eu e o Marco fomos nos falando menos até perdermos contato. E o clima fúnebre q se instala na casa quando alguém morre também foi passando. Eu só sentia saudades do meu avô e do Marco. O mundo me parecia vazio sem eles. E foi a primeira vez q eu realmente sentia q não tinha mais fôlego para viver, como a minha avó quando tentou a morte.

Quando Marte entrou em Vênus

Nessa época eu tinha um computador com acesso à internet. Como a conexão era discada (acho q vou passar o resto da vida tendo alucinações com o barulho q o modem fazia para conectar!), vivia a vida esperando os períodos de meia-noite às seis da manhã e os fins de semana, além dos feriados, quando o pulso telefônico era único. Fora esses períodos, a vida era só tédio e completamente sem sentido. Aconcelhada por mim, minha mãe fez seu cadastro num site de relacionamentos. Conheceu uma meia dúzia de caras mas não chegou a se interessar por nenhum. Até aparecer o Roberto, por quem ela se apaixonou perdidamente. Ele era filho de uma inglesa com um importante psicanalista brasileiro. No meu aniversário de 14 anos minha mãe o apresentou para mim, num almoço na nossa casa. Minha mãe ficou tão nervosa q colocou açúcar no lugar do sal no arroz. Eu e Roberto rimos do fato. Ele parecia ser um cara legal. Nesse dia eu vestia uma blusa de um quadrinho dos anos 80, o Sandman, q na verdade eu nunca tinha lido. Ele comentou q tinha a série, acho q para puxar amizade. Logo Roberto começou a dormir na nossa casa todos os fins de semana. E sempre q vinha trazia 3 volumes de Sandman para mim. Nessa época eu tinha um namoradinho de internet, chamdo Júnior, q morava em São Paulo. O Roberto achou q seria legal eu conhecer a cidade e, depois q esse namoradinho veio a Brasília e minha mãe e o Roberto conheceram ele, o Roberto me pagou uma viagem a SP. Eu fiquei louca com aquela cidade! Me senti uma caipira olhando aqueles prédios enormes, aquele povo diferente. Fiquei maravilhada com as prostitutas semi-nuas no centro da cidade às 3 da tarde. Quando eu estava embarcando no ônibus para SP, minha mãe enumerou coisas q eu não poderia esquecer lá, a roupa tal, a máquina fotográfica, isso, aquilo, etc, e a virgindade. Nós rimos, mas por motivos diferentes. Quando voltei, ela me perguntou se eu tinha trazido tudo de volta. "Só perdi uma coisa", falei sorrindo. E ela soube do q se tratava. Até hoje ela deve pensar q perdi a virgindade em São Paulo. Logo depois de voltar para Brasília terminei com esse namorado. Ele era muito dependente, muito bonzinho e me sufocava. Mas ele era apaixonadíssimo por mim e insistiu muito e por muito tempo para continuar o namoro, até q desistiu. Minha avó adorava ele e disse q eu não arrumaria ninguém melhor. Mas essa era a questão, eu queria alguém pior.

Aborto e oportunidade perdida

Eduardo dormia na minha casa todos os finais de semana. Naquele tempo, minha mãe permitia q os meus namorados dormissem na minha cama, com a porta trancada. E, dessa forma, comecei a fazer sexo com freqüência. Foi a primeira vez q sentia atração por alguém, de fato. Às vezes, no DI, os nossos amigos faziam piadas pois nós costumávamos nos beijar e começar a morder os lábios um do outro, não como namorados usualmente fazem como demonstração de desejo, mas dilacerando um ao outro, provocando sangramentos e engolindo a mistura de nossos sangues. Era intenso e, como eu sempre quis, quebrou meu tédio. Transávamos na rua, com minha mãe em casa, de qquer jeito e a toda hora. Como não tinhamos outro método contraceptivo, usávamos camisinha. Só q, em uma dessas transas loucas, depois q ele gozou e tirou o pau de dentro de mim, apenas o anel da camisinha estava na base de seu pinto. O resto, em frangalhos, estava dentro de mim, misturado com a porra q derramava abundante. Eu estava, literalmente, fodida. De acordo com os meus cálculos, devia estar no meu período fértil. Eduardo se desesperou completamente. Naquela noite ele não falou mais comigo, como se o q tivesse acontecido fosse culpa minha, e decidiu dormir num colchão no chão, ao lado da minha cama. Eu estava preocupada demais para dormir. Olhava para ele naquele sono profundo durante a madrugada. Acariciei seu rosto. Ele segurou a minha mão e beijou-a, virando para o lado abraçado ao meu antebraço. Ele estava dormindo. Naquela madrugada eu pedi a proteção de todos os demônios q eu gostava de fantasiar q existiam e q tomavam conta de mim, me amavam. Quando amanheceu, Eduardo ainda não estava falando comigo. Fui ao banheiro e expeli um grande coágulo de sangue. Creio q era impossível q aquilo fosse um feto, dado o pouco tempo desde a possível concepção. Mas quis acreditar q era um aborto. Os meus demônios me protegiam e me amavam. Não contei nada ao Eduardo, q saiu sem se despedir. Eduardo jogava RPG, o q despertava minha curiosidade, A possibilidade de inventar histórias e viver personagens sempre me cativava. Mas ele não jogava com mulheres, pois elas eram "muito apegadas aos detalhes, impediam a ação" para ele. Em outras palavras, ele estava se lixando para a história e para os personagens q tanto me encantavam, o q ele gostava era a porradaria. No dia seguinte ao episódio da camisinha, encontrei-me com um amigo nosso do DI, q também jogava RPG. Comentei a visão de Eduardo com esse amigo, o Bruno, q disse q era um absurdo pois "jogar com menina é bem mais legal, pq elas se prendem à narrativa e não só nas lutas". Dias antes eu havia notado o Bruno lendo Edgar Allan Poe, o q já tinha chamado minha atenção. Mas aquilo era demais. Como não me apaixonar com alguém com uma opinião dessas? Bruno tinha uma beleza diferente de tudo: Era excessivamente alto e magro (as costas se encontravam diretamente com as pernas, sem vestígio algum de bunda no meio do caminho), usava óculos fundo-d-garrafa (o q lhe dava aquele velho chame de intelectual, num lugar onde ninguém lia nem bula de remédio) e um cabelo simplesmente incrível, loiro e ondulado, comprido até a altura da não-bunda. Ele era sério, embora fosse divertido. Era amigável com todos, inclusive com os punks q queriam cortar seu cabelo para vender. Tentando me insinuar muito discretamente, contei-lhe o q havia acontecido no dia do aborto e disse q tinha terminado com o Eduardo. Ele ficou chocado com a falta de sensibilidade do amigo e eu fiquei sensibilizada com a sensibilidade dele. Realmente não me lembro de como começamos a nos beijar, só lembro de ele ter ficado tão perto de mim aponto de eu não saber onde estavam as minhas fronteiras e de ele me implorar para não parar de beijá-lo. E eu não queria parar! Mas sempre fui muito verborrágica e sentia vontade de falar coisas durante os beijos. Então ele suplicava q eu voltasse ao beijo. Era sabido q o Bruno tinha problemas com seus pais, mas ele foi a primeira pessoa em quem eu vi o sofrimento cintilar nos olhos. Ele era extremamente solitário e me desejava por perto para q eu o salvasse de si mesmo. Naquele momento, a única coisa q eu queria era entrar dentro da consciência do Bruno para q nenhum de nós dois sentíssemos mais a solidão q pulsava a cada sinapse de nossas mentes. Eu queria preenchê-lo plenamente. Nunca havia sentido tamanha devoção por alguém quanto senti pelo Bruno naquela noite. O sexo se tornou obsoleto e a forma com q ele apertava meu corpo contra o dele, com um desespero tão imenso, me fazia gemer não de tesão, mas como se minhas espectativas em relação ao sentimento de morrer estivessem se concretizando. Mas essa plenitude durou pouco. O Eduardo, q não sabia q eu tinha terminado com ele (nada foi verbalizado, na verdade), disse para o Bruno q ainda estávamos juntos. O Bruno, q era uma pessoa acostumada a ser traída, acreditou. Disse-me q não queria mais me ver nem ter notícias minhas e não me deu chance nenhuma de explicar. Então eu notei q ele nutria um sentimento (provavelmente uma esperança) por mim. E eu destruí aquilo, mesmo sem ter feito nada. E notei q eu amava ele, daquele jeito q os budistas descrevem o amor. Em cólera, nunca mais quis ver o Eduardo na minha frente, e assim foi. Muitas vezes depois eu vi o Bruno, q não admitia me ouvir e, provavelmente, se esqueceu de mim. Por muito tempo chorei por isso, pela chance perdida.

Sexo, drogas e metal ruim

Ainda em 1999 eu voltei à praça do DI, onde eu havia conhecido alguns amigos da Daniela e da Gabriela. Era uma praça bem próxima da casa dos meus avós, onde os roqueirinho mequetrefes se encontravam para beber, se drogar e conversar. Comecei a matar muitas aulas para ir para lá no período da tarde. Nessa época, meu avô sempre me dava R$3,00 para eu pegar lotação até o colégio (eu tinha uma enorme preguiça de andar, principalmente sob o Sol de meio-dia). Geralmente esse dinheiro era usado para comprar bebidas. Certa vez, estava com uma das garotas q a Daniela me apresentou quando ela cumprimentou um garoto q vinha passando por nós. Ele era incrivelmente extraordinário. A pele muito branca, os cabelos lisos e pretos na altura do queixo e, o q mais me causou euforia, usava toneladas de delineador preto borrado nos olhos. Perguntei à menina quem ele era e ela só respondeu "um gótico". Puxei assunto com ele para saber o q ele ouvia (naquela época eu ouvia New Metal, o q não era um motivo de orgulho) e ele me recomendou Dead Can Dance, Mephisto Walz e Bauhaus. Ele estava só fazendo pose, pois o q ele de fato ouvia era Cradle of Filth e Dimmu Borgir (o q também não é nenhum motivo de orgulho, mas é certamente melhor do q New Metal). Naquele mesmo dia ele me emprestou uma fita com Cradle of Filth, Tristania e Theatre of Tragedy. Eu me deliciei o q se chamava de Gothic Metal (o gutural masculino com o lírico feminino). Logo voltamos a nos ver. Logo começamos a nos ver todos os dias. E logo eu me apaixonei por ele. Eduardo - esse era seu nome - era muito introspectivo e pessimista, o q me intrigava. Ele parecia nunca se soltar. No DI tinha uma sabedoria popular de q "um bêbado nunca mente". Então eu, munida de cortezano e vinho tinto da pior categoria, embebedei o Eduardo com a esperança de ele se soltar mais. E foi mais ou menos o q aconteceu. Eu, q não podia afirmar q estava sóbria, comecei a passar a ponta dos meus dedos ao longo de sua coluna. Ele se arrepiava e pedia q eu parasse, daquela forma sem convicção quando a última coisa q se quer é q a pessoa pare. Eu não parei, e acabamos nos beijando. Começamos a namorar, então. Eduardo e eu estávamos sempre no DI, sempre bêbados ou fumando maconha. Ele fumava cigarros convencionais e, embora ele fosse contra, eu costumava experimentar seus cigarros. Ele dizia para eu não tragar, pois eu "teria um prazer muito grande e me viciaria". E não me viciei, embora tivesse tragado. E, de fato, dava algum prazer. Mas eu, mais uma vez, esperava muito mais.

Com a auto estima no chão

Era agosto de 1999. Minha mãe precisava encontrar um outro colégio q me aceitasse naquele período do ano. Encontrou uma outra escola particular e pequena, q ficava um pouco mais distante da casa dos meus avós (para onde eu ia pela manhã, almoçava lá e ia para a escola, voltando para a casa deles depois, onde minha mãe me pegava quando saía do trabalho). Ela me levou para uma reunião com o coordenador do novo colégio, Álvaro, para q eu conhecesse o estabelecimento. Eu vestia uma camisa do Black Sabbath, o q chamou a atenção do coordenador. Ele se virou para mim e comentou q gostava do Black Sabbath também. Quando eu fiz menção de conversar com ele, minha mãe ordenou q eu calasse a boca. Era melhor obedecer! Deixaria aquela conversa para outra ocasião. Mas aquele comentário foi o suficiente para acender uma gigantesca esperança em mim. E o Álvaro (talvez ele tenha sido o único homem na minha vida a conseguir tal feito) não só atendeu às minhas espectativas como as superou. Ele acreditava em mim. Ele me tratava como se eu fosse especial. E, numa época q eu estava completamente sozinha e desamparada, com a impressão de q minha mãe e todas as pessoas do mundo não me davam crédito algum, Álvaro me fazia acreditar em mim mesma. Ele resgatou minha auto estima do chão. Ele me fez ver q eu era especial, inteligente, única. Ele próprio era muito único: era um senhor careca e magro q escondia, debaixo do terno e gravata, as cerca de sete tatuagens. Me fazia pensar em coisas q eu nunca pensara antes, como soluções para a reforma agrária e coisas assim. Me ensinou a ouvir The Clash e a ler Kafka. Lemos "Carta ao pai" juntos. Acho q tive um certo complexo de Electra com ele. Certa vez, fiz um trabalho de história do Brasil, mas o professor não acreditou q eu tivesse redigido o texto, me acusando de tê-lo copiado da internet. Mas não o Álvaro, q guardou o trabalho para ele e o achou genial. Ele sabia q o texto era de minha autoria, pois se tratavam de coisas q nós dois discutíamos na sala de coordenação.

A obsessão da persona non grata

Na sétima série (ano de 1999, quando eu completei, em julho, 13 anos) eu estava terrivelmente obsessiva pela Gabriela. Observava doentiamente tudo o q ela fazia, tirava fotos dela quando ela não estava olhando. Me aproximava, mas não muito. Só o suficiente para poder ver todas as sua reações, o q ela conversava e com quem, só para estar sempre em contato com aquele objeto-alvo do meu ódio/desejo. Ela cursava a 8ª série, e fazia a Educação Física junto com a minha classe. Eu, q sempre odiara educação física e arrumava mil desculpas e atestados médicos para não participar das aulas (a mais freqüente era alergia ao Sol), agora a tinha como disciplina predileta. Ansiava em vê-la, para odiá-la. Quando ela foi a primeira a colocar um piercing, eu a odiei. E quando ela foi a primeira a pintar as pontas dos cabelos de roxo com violeta genciana, eu a odiei. Durante uma aula de Educação Física, o professor comentou com ela algo sobre a sua irmã (da Gabriela, não do professor). Eu nem sabia q ela tinha uma irmã, mas descobri, ouvindo aquela conversa, q se chamava Daniela e estudava no nosso colégio, cursando a 6ª série. Apenas pela minha obsessão pela Gabriela quis saber quem era sua irmã. Mas, quando a conheci, os céus se misturaram com a terra e eu não vi mais nada. Daniela era o protótipo da perfeição! Então eu resolvi me aproximar dela. E, paradoxalmente, comecei a imitá-la para me tornar tão única quanto ela. A Daniela era metida a riponga e ouvia coisas como Janis Joplin e The Doors, q era o q eu ouvia na infância por influência dos meus primos mais velhos e minha mãe. Então eu comecei a escutar aquilo pq ela escutava. Comecei a me vestir como ela se vestia. Até dread-look no cabelo eu fiz, por ela. Nessa época eu conversava muito com a psicóloga do colégio, Mariléia, q se revelou uma pessoa agradável, carinhosa e confiável. Revelei a ela, certa vez, q eu acreditava nutrir uma paixão pela Daniela. Mariléia disse q era algo normal na minha idade questionar a identidade sexual, me tranqüilizou e foi extremamente amável. Por fim, ficamos amigas, eu e as duas irmãs. Um dia, cerca de dois dias depois da minha conversa com a psicóloga, logo no primeiro horário co colégio, entramos no banheiro, colamos um absorvente no espelho e o sujamos com ketchup. A idéia de fazer isso foi minha (inspirada numa história q minha prima 11 anos mais velha me contou q havia feito em seus tempos de escola) com o único intuito de impressioná-las. Como saímos do banheiro rindo muito do nosso feito, a zeladora do colégio logo desconfiou e foi conferir o banheiro. Imediatamente fomos chamadas à direção. A coordenadora do colégio, Nailde, estava grávida (a sua barriga era tão alta e esquisita q costumávamos falar q ela tinha engravidado de sexo oral, o esperma devia ter-lhe fecundado o estômago) e, com todas aquelas alterações hormonais, havia desenvolvido uma enorme apatia por mim. Nós 3 pegamos uma suspensão de um dia e disseram para mim (e só para mim) q eu só poderia voltar à escola acompanhada da minha mãe, q já estava cansada de ser chamada no colégio, geralmente pq eu falava o q me dava na telha, não respeitava autoridade, questionava tudo demais. Sempre durante essas conversas eu ficava ouvindo alguma funcionária da escola (geralmente a Nailde) dizer para minha mãe quão ruim eu era, enquanto minha mãe se envergonhava da inha existência e se culpava por ter me educado mal. Eu era um fracasso, é o q eu entendia de tudo o q se passava. E isso tudo sem direito de resposta ou justificativa de minha parte. Eu acabava ficando tonta, com náuseas e uma enorme dor na barriga, q mais tarde eu aprendi q se chamava gastrite (e mais tarde ainda aprendi q fazia parte de um fenômeno chamado "somatização"). Naquela tarde, como tudo já estava ferrado mesmo, eu, Daniela e Gabriela fomos à praça do DI, onde elas me apresentaram algumas pessoas (uns malas esquisitos e feios) e bebemos e fumamos maconha. Eu nunca tinha bebido ou fumado maconha na vida. Mas, quando fomos fumar com um desses malinhas escrotos, fingi q era bem experiente no assunto. Como não cometi nenhuma gafe, creio q todos tenham acreditado. A Daniela, q também nunca tinha fumado, tossiu horrores e acho q tirou a atenção do meu próprio embaraço com a droga. Ninguém percebeu q eu estava completamente "alta", lá em casa. De volta ao colégio, a tal reunião me aguardava. Começava a passar mal de antemão. Minha mãe já estava muito irritada, e eu com muito medo dela (sempre tive medo da minha mãe). Aquilo estava se tornando habitual, por mais irritada q minha mãe ficasse e por mais enjoada q eu me sentisse. A conversa foi igual a todas as outras, na verdade. Até a hora q me pediram para sair da sala para q elas - Nailde e Mariléia - conversassem a sós com a minha mãe. Se fosse hoje em dia, eu nunca permitiria q um assunto sobre a minha pessoa fosse tratado na minha ausência, se tivesse esse poder. Mas naquela época, naquela situação, morrendo de medo da minha mãe, não tive outra escolha: deixei a sala. Os minutos q se passaram com minha mãe lá dentro da sala ouvindo sei-lá-o--q, foram terrivelmente ansiosos. Sentia sensações físicas me percorrendo todo o corpo e logo eu tive a sensação d q ia desfalecer, mas então minha mãe saiu da sala, e eu nunca mais a vi tão brava. Ela me arrastou pelos cabelos até o carro, onde ela começou a chorar e esmurrar o volante. Até aí eu não sabia a gravidade do q havia sido dito e a proporção q isso teria na minha vida. Foi q então minha mãe começou a verbalizar o q estava acontecendo. A doce Mariléia havia contado para minha mãe toda a minha conversa sobre minha paixão pela Daniela. E disse q "pessoas com essa índole", ou seja, lésbicas, "não seriam toleradas naquela instituição". Disse também q eu estava "convidada a me retirar". Eu estava sendo expulsa do colégio q eu estudava há 7 anos. Eu havia sido profundamente traída pela psicóloga q eu julgava ser confiável (o q, durante os anos seguintes, me impediria de confiar em outras pessoas, em especial em psicólogos). Aquela foi a última vez q fui ao meu antigo colégio. Foi a primeira vez q não pude contar com a compreensão e o apoio da minha mãe. Daniela e Gabriela não foram expulsas, obviamente, pois não eram elas as "lésbicas" da história. E foi assim q eu descobri a minha bissexualidade.

Religião e Pecado

Logo eu e minha mãe nos mudamos para o apartamento q ela havia comprado, q ficava num bairro q ainda estava sendo construído. Pela primeira vez, eu tinha um quarto só meu. O nosso prédio foi um dos primeiros a ser contruído, de forma q, quando nos mudamos para lá, não havia nada além de construções e muita poeira. Não havia comércio de nenhuma espécie e nem transporte público. Mas minha mãe amava aquele apartamento. Ela comprara ele sozinha, sem ajuda de homem algum, com seu próprio esforço. Ela se sentia vitoriosa naquela lugar e repetia para mim, todos os dias, q seríamos sempre só nós duas naquela varanda onde se via o nada e além do nada. Minha mãe afirmava q era feliz sendo solteira e q não precisava se casar. Se dedicou totalmente a mim e acho q ficou uns 12 anos consecultivos sem fazer sexo. Eu não poderia dizer o mesmo. Com 13 anos, meus hormônios ferviam e me subiam até a cabeça. E eu cedia prontamente a esses impulsos da minha libido, sem culpa e sem preocupações. Comecei a namorar um cara q morava no nosso prédio, q tinha 19 anos e se chamava Éros. Assim como o Carlos, ele era feio, mas acho q eu não me importava muito com isso. Ele era filho da pessoa mais católica q eu conheci na vida (mais ainda q minhas tias-avós de Minas Gerais). Ela atendia o telefone e, ao invés de dizer "Alô", ela dizia "A paz de Cristo". Eu nunca soube o q fazer quando ela atendia aos meus telefonemas desse jeito. Ficava entre dizer "amém" ou simplesmente ignorar e pedir para chamar o Éros. Geralmente era a segunda opção. Ele havia passado os três anos mais significativos da vida de alguém (dos 14 aos 17), num seminário, com o intuito de virar padre. Ele nunca tinha namorado com ninguém e, obviamente, era virgem. E, obviamente, era louco para me comer. Mas tinha toda uma ideologia cristã e acabava por me respeitar muito. Talvez me respeitasse mais do q eu merecia. Todas as noite nós nos trancávamos no quarto dele e ele fazia sexo oral em mim até dar a hora de eu voltar para casa. Nos domingos nós íamos para a igreja, onde eu cantava e ele tocava violão, mas o q eu realmente gostava era do pecado. Ele sabia q minha mãe era atéia e q eu só havia sido batizada pq ela queria um motivo para fazer um churrasco com os amigos (e se o padre q me batizou soubesse q minha mãe era solteira e q meu padrinho era viado, provavelmente não teria realizado o batismo). Nunca fiz catequese, primeira comunhão, crisma ou qquer dessas coisas q a igreja inventa. Já tinha comungado, mas sem saber o q estava fazendo . Certa feita, acompanhando meu avô à igreja, perguntei pq todos - inclusive ele - estavam se levantando e se dirigindo ao altar. Ele só falou para eu o acompanhar, então recebi a hóstia e a coloquei na boca. Quando a mastiguei meu avô fez cara feia e falou para eu não mastigar, afinal aquele era o corpo de Cristo! Me orientou também, quando voltamos ao banco em q estávamos sentados, de q eu "me ajoelhasse e ficasse bem quietinha". Sem saber, figi q estava rezando. Anos depois descobri q ele tinha feito exatamente a mesma coisa com a minha mãe. Meu avô era um cara muito sincrético. Eu e o Éros nunca fazíamos penetração, mas todas as noites ele me fazia gozar com a língua. Acho q, naquela época, fiquei viciada em sexo oral. Ele parecia se satisfazer daquela forma, embora tivesse aquela ânsia em me comer. Eu, por outro lado, desprezava o fato de ele ter um pau. Éros teve o primeiro computador com acesso à internet q eu tive contato. E o acesso às salas de bate-papo foram tomando o lugar do sexo oral, de forma q eu não tinha mais motivos para namorar com ele, então terminei o namoro. Mas fiz questão de nutrir a amizade, não sei se pq o bairro em q morávamos era muto tedioso ou se pq eu precisava continuar tendo contato com ele para ter acesso ao seu computador.

Brigas, sexo e decepção

Em agosto de 1998 eu tive uma enorme briga na rua. Arrumei uma confusão com Lorraine, uma menina mais velha da minha classe q era envolvida com gangues e com drogas. Ela e mais três amigas de gangue dela vieram me bater na saída da escola. Um cara q passava separou todas nós e me levou até em casa. Embora eu não fosse exatamente o q se poderia chamar de inocente, eu estava em desvantagem na história. Quando minha mãe soube do ocorrido, não permitiu q eu voltasse àquela escola e me matriculou novamente no meu antigo colégio. Voltei a conviver com o Paulo. E voltei a ter um ensino decente. Consegui recuperar a matéria perdida com pouco esforço e apoio dos professores, q gostavam muito de mim. Mas agora havia um empecilho e o nome dele era Gabriela. O Paulo só falava sobre a tal garota. Ela estava um ano na nossa frente, era linda, tinha seios enormes e perfeitos, era "metida a roqueirinha" como o Paulo, parecia ser tão inteligente e autêntica. Eu desenvolvi por ela um dos sentimentos mais estranhos já nutri por alguém na vida. Eu a odiava mas eu a idolatrava. Eu sentia uma enorme inveja, não só pq o Paulo ficara impressionado com sua pessoa, mas pq ela nunca passava o intervalo sozinha. As pessoas pareciam morrer por sua companhia e ela parecia estupidamente feliz. Eu tinha nojo. Eu queria SER ela. Eu queria engolí-la, me tornar tudo o q eu acreditava q ela era. E eu fiquei enormemente obsecada por ela. Uma tarde, quando eu e o Paulo estávamos sozinhos em seu apartamento, ele começou a insistir em fazer sexo comigo. Ele era lindo e eu gostava muito dele, mas não sentia vontade alguma de transar com ele. Mas tamanha era a insistência (ele era virgem também) q ele me venceu pelo cansaço. Eu não tinha a mínima idéia de como se colocava uma camisinha, mas ele parecia saber. Então ele me penetrou com um enorme cuidado. De acordo com as revistas femininas q eu lia, a primeira relação era bastante dolorosa. Mas eu não senti dor nenhuma, aliás, só senti tédio e vontade q aquilo acabasse logo para eu poder fazer qquer outra coisa. No meio da transa ele me perguntou se eu já tinha gozado. Eu nem sabia q mulher gozava!!! Aí eu respondi q já e mandei ele terminar logo, q gozou logo em seguida. Vesti minhas calças e fuipara casa procurar algo para fazer. Não pensei muito em sexo depois disso, talvez pela falta de glamour da experiência.

A psicose e o meu hímen

No jornal local havia um caderno voltado para as crianças/pré-adolescentes q era publicado todos os domingos. Eu era leitora assídua desse caderno. Lá anunciavam seus gostos pessoais e procuravam amigos q tinham coisas em comum. E foi lá q eu encontrei Carlos, meu primeiro namorado, q havia colocado um anúncio procurando pessoas q gostassem das Spice Girls. Meu primeiro beijo não foi com ele – nem o segundo, o terceiro, o quarto... q tiveram tanta importância q nem me lembro deles. Meu primeiro beijo foi com o primo dos meus vizinhos, q tinha 15 anos enquanto eu tinha 8. Senti-me atraída por ele, q disse q me beijaria se eu beijasse também o seu primo – meu vizinho, um ano mais novo e q não me atraía. Mas acabei beijando os dois, de língua, cinco vezes cada. Não foi tão bom quanto eu imaginava.
Mas foi com o Carlos q eu tive minhas primeiras experiências sexuais. Não chegamos a fazer sexo propriamente dito, mas ele me penetrava com os dedos. Eu não achava aquilo ótimo, mas ele sim. E como eu não chegava a me incomodar com esse hábito, não falava nada e deixava ele seguir em frente. Uma vez, depois de ele me penetrar com os dedos durante uma tarde inteira, fui ao banheiro. Quando me sequei, o papel higuênico estava cheio de sangue. Fiquei com vergonha por ele ter me penetrado enquanto eu estava menstruada, mas me acalentei com a idéia de q, como os dedos dele não estavam ensangüentados, ele poderia não ter percebido. Naquele mesmo mês, quando fiquei menstruada pela segunda vez, notei q aquele primeiro sangramento não se tratava de menstruação: foi meu hímen q rompeu. O Carlos era um sujeito meio maluco (de q outra forma um cara de 17 anos namoraria uma menina de 12?). Acreditava piamente q ele e mais dois amigos (q nunca conheci e nunca tiveram suas existências comprovadas) faziam parte de uma organização q protegia a Terra das invasões alienígenas, chamada USK. Eu, no meu sempre presente tédio e carência de fantasias, acreditava nisso e adorava tudo. Ele me contava histórias fantásticas sobre uma substância chamada "função plasma", fabricada apartir de 4 litros de coca-cola e outros itens secretos q ele não poderia me revelar, q eles usavam para capturar os alienígenas. Com o tempo, a fantasia ficou cansativa e foi engolida para dentro do tédio. Agora Carlos estava sempre tendo reações dramáticas, pois notara q eu estava prestes a terminar o namoro. Ameaçava se matar, mas mesmo assim consegui me livrar daquela presença q se tornara insuportável. Em resumo, nossa relação durou dois meses: um de fantasia, delírios e supervalorização; e o outro de tentativas minhas de terminar o namoro sem ninguém morto.

A rede pública de ensino

As pessoas do colégio público eram, em geral, mais velhas. Com exceção de Larissa e sua prima, q tinham mais ou menos a mesma idade q eu. Larissa era branquela, meio amalucada, gorda, cheia de espinhas na cara, cabelo sempre seboso e oleoso, além de sempre fazer coisas muito nojentas. Sua mãe morava na Espanha e como Larissa nunca conseguiu me dizer com q ela trabalhava por lá, sempre desconversando do assunto, presumo q ela se prostituía. Danielle, sua prima, era ainda pior. Era grotescamente feia por natureza e o desleixo q ela tinha consigo mesma só piorava ainda mais a situação. Era extremamente magra e minúscula, parecia um brinquedo bizarro. Tinha os dentes tortos e quebrados e um corte de cabelo q parecia a maneira tradicional de se tosar um poodle, lembrando uma versão absurda do q foi a moda dos anos 80. Além de tudo, ela era burra e lenta. Mesmo assim eu andava com elas pois éramos fanáticas pelo mesmo grupo musical, as Spice Girls.

A incompetência alheia não me torna mais potente

Na quinta série, ano de 1997, eu ainda tinha um hábito de levar meus cachorrinhos de pelúcia para o colégio. O cachorro de pelúcia estava doente, e eu estava certa de q era minha obrigação ficar sempre perto dele. Os meninos da classe (e isso incluía o Paulo) brincavam de colocar o Ken por cima da Barbie, simulando o q eles entendiam ser um ato sexual. Eu não me importava com sexo, me importava com cachorros. A diferença entre a minha mentalidade e a mentalidade dos meninos da minha classe (era uma classe de 10 pessoas, sendo 9 meninos e só eu de menina) era tão grande q as secretárias do colégio me questionavam pq eu carregava bichinhos de pelúcia para o colégio. Eu não estava muito grandinha para aquilo? Eu achava q elas é q estavam muito velhas.
No ano de 1998, no meio do ano, minha mãe resolveu me tirar do colégio e me colocar na fundação. Nunca havia estudado em colégio público e não me animei muito com a idéia. Fiquei três meses no colégio público. O professor de matemática era alcóoolatra e dormia na classe ao invés de dar aula. Tinham aulas de ensino religioso, q minha mãe (q sempre foi atéia), me deu permissão de não assistir, mas eu sabia q aquilo era visto com maus olhos pelas funcionárias do colégio. E a professora de português não sabia o q era um verbo de ligação. Como eu nunca prestava atenção nas aulas e ela tinha o hábito de perguntar a matéria para aqueles q estivessem mais distraídos (e eu sempre acertava, invariavelmente), ela começou a achar q eu era superdotada. Minha mãe foi chamada por essa razão. Para não parecer desprezo, me levou a uma psicóloga para fazer o teste de QI. Foi a primeira de incontáveis psicóloga q eu teria durante a vida.
Fiz o teste e nada de mais. Resultado alto, mas dentro dos padrões de normalidade. Mas saí de lá cheia de críticas quanto à metodologia do teste: feito para crianças q sabem tanto q se sentem entediadas quando alguém tenta ensinar-lhes algo, o teste era demais comprido, cerca de umas 600 questões q iam se complicando ao longo do teste, fazendo com q eu (e provavelmente boa parte das crianças q o faziam) marcasse as respostas ao acaso só para terminar logo. Acredito q tenha conseguido uma pontuação mais baixa do q de fato seria se eu não tivesse perdido a paciência. Daí a eu ser superdotada é um passo muito grande. Mas para eu ser superdotada e me achar superior a todos é um passo pequeno.

Pessoa ordinária ou extra-ordinária?

Com 8 anos, então, eu estava na 2ª série do 1° grau (agora chamado de ensino médio). Estudava num colégio pequeno, mas particular, no mesmo bairro q eu morava. A escola era boa no limite em q uma escola pode ser boa para uma criança q não é muito comum e q sente certa dificuldade em fazer amigos. Mas eu tinha alguns amigos, sim. Duas garotas, a Gisley (é, assim mesmo) e a Mariana. Não dividíamos grandes segredos nem confiávamos piamente uma nas outras. Mas costumávamos andar juntas.
Numa festa de aniversário da Gisley eu tive um sentimento q me acompanharia para o resto da vida: aquela sensação de q se está sozinho, mesmo quando perto de uma multidão. Vc olha as pessoas se divertindo ao som daquela música q não diz nada para vc, todos entretidos e o tempo começa a ficar devagar, tudo se movendo em câmera lenta e vc ali, observando tudo e todos. Então vc se sente, de uma maneira inexplicável, acima de todo mundo e, ao mesmo tempo, inferior a todos. Mas aprendi a conviver com esse sentimento.
Tanto eu, quanto a Gisley e a Mariana, tínhamos o mesmo objeto de paixão. Um menino dos anos mais velho, Paulo, q estudava na nossa classe. Paulo era branco, com aquela robustez das crianças mais saudáveis, corado e tinha um sedutor cabelo loiro e liso, caindo até a altura dos ombros. Nós três éramos loucas por ele. Mas acho q elas eram muito medíocres para uma pessoa tão extra-ordinária. Eu, obviamente, era uma pessoa única e diferente de todas as outras, como ele. E nós dois ficamos amigos e começamos a freqüentar a casa um do outro.
A família do Paulo, de origem italiana, era o mais fascista q uma família pode ser. Seu irmão mais velho parecia ser o Mussoline em pessoa, só q incrivelmente mais bonito. Certa feita, já tinham umas três semanas q as aulas tinham começado, ele perguntou se a minha mãe poderia comprar o material escolar dele, se ele desse o dinheiro, pq os pais dele ainda não tinham comprado. Minha mãe ficou levemente chocada com o descaso dos pais dele.
Mais tarde, acho q na quarta série, havia um monte de ilustrações onde nós tínhamos q escrever uma história. Todos, inclusive eu, escreveram uma história padrão. Era uma arvorezinha q crescia, dava frutos e ficava rodiada de borboletas. Paulo escreveu uma história diferente. Com a ilustração da árvore cheia de bolotinhas pretas (era para serem os frutos) e as borboletas em volta da planta, Paulo escreveu q a árvore era tão incrivelmente chata q as borboletas defecaram nela. Com essas palavras. Os professores sufocaram aquele grito de criatividade e expressividade, como geralmente a escola faz. Minha mãe adorou a história. Paulo realmente era uma pessoa extra-ordinária.

Trauma?

De volta à casa de meus avós, continuei vivendo. Gostava de lá, gostava muito do meu avô, tinha certas brigas com minha avó. Aliás, minha avó sempre foi uma pessoa terrivelmente complicada. Só fui entender essa complexidade mais tarde. Certa vez, ela teve uma pneumonia tão forte a ponto de todos os familiares terem certeza de q ela morreria. Ficou, por um tempo, completamente inválida, jogada na cama do quarto dela (pq ela e meu avô, pelomenos depois q eu nasci, não dormiam no mesmo quarto). Além da pneumonia ela sofria de uma depressão acentuada e teve uma fase alcóolatra, pq realmente detestava Brasília (preferia o Rio de Janeiro ou Curitiba - lugares q meu avô avia trabalhado, como mestre-de-obras para a Rabello, e levado a família consigo - onde ela tinha amigas, namorados e farra).
De fato, Brasília é uma cidade entediante. Essa fase de alcoolismo da minha avó deve ter sido muito difícil para toda a família. Mas eu era muito pequena para notar os dissabores da vida e até mesmo o clima negro dentro de casa, estampado nos rostos cansados da minha mãe e do meu avô. Eu brincava com os cães no quintal, tomava banho de mangueira, e isso era tudo. O q me importava era q a minha avó ficava muito mais legal quando estava bêbada (até deixava minha cadela subir na cama!) Acho q, provavelmente por isso, eu ia na rua comprar cervejas para ela, q nessa altura já não costumava mais sair de casa, embora fosse capaz de andar.
Logo fui proibida, pelo meu avô e minha mãe, de ir à "casa da cerveja" comprar bebidas para minha avó, assim como todos os vizinhos foram instruídos a não prestarem esse favor nem emprestar dinheiro à minha avó. Os comércios de bebidas de todo o bairro também foram advertidos q, se vendessem fiado a ela, não esperassem q tal dívida fosse paga. E então lembro de fashes da minha avó muito deprimida (deprimida no sentido patológico mesmo, não qquer tristezinha q as pessoas tendem a chamar de depressão para dar um ar mais severo do q de fato é, talvez para ser aceito melhor pelos outros, talvez como retrato do narcisismo de morte q compõe todos os seres humanos). Ela estava com uma depressão ansiosa, uma depressão desesperada. Foi aí q ela teve algumas experiências com álcool de cozinha misturado com suco de laranja. Mas, passada a fase inicial, ela parecia estar se adaptando à vida sóbria. Exceto talvez por não suportar as reuniões dos Alcóolicos Anônimos, embora minha mãe tirasse grande proveito e alívio das reuniões voltadas aos familiares dos alcóolatras.
Foi então q aconteceu uma das lembranças mais fortes da minha vida e uma das únicas lembranças claras da minha infância. Minha mãe tinha uma fobia patológica de baratas, de forma q ela ouvia os passinhos desses sub-seres, sentia o cheiro delas, e não conseguia dormir. Uma madrugada qquer entre o segundo semestre de 1993 e o primeiro semestre de 1994, quando eu tinha 7 anos de idade, ela não conseguia dormir, mas estava deitada na cama, com medo das baratas. É importante ressaltar q nessa época, na casa dos meus avós, nós dormíamos no mesmo quarto, com as camas lado a lado. Eu já estava dormindo. E então houve um barulho na área verde, q era um cômodo vizinho, como se uma cadeira tivesse sido derrubada no chão. Eu acordei com o barulho, minha mãe foi ver o q era. Na área verde ficavam uma enorme mesa de estudos e de desenhos, uma estante enorme e lotada de livros, o armário e a geladeira, q guardavam todas aquelas besteiras alimentares q crianças de 7 anos adoram comer, como sorvetes, biscoitos e iogurtes. Minha avó, q se tornara diabética (provavelmente em função do alcoolismo), costumava assaltar a geladeira e o armário durante a noite. Eu pensei q era isso o q tinha acontecido naquela noite, e acho q minha mãe também tinha essa esperança. Eu segui minha mãe até o cômodo verde e vi minha avó pendurada pelo pescoço por uma corda amarrada a uma das vigas de madeira q sustentavam as telhas. Ela estava roxa, mas pálida. E ela babava. Minha mãe tentava suspender aqueles mais de 100kg, mas não dava conta sozinha. Chamava pelo meu avô, q como todo surdo de um ouvido, dorme com o ouvido surdo para cima. Como ele não ouvia, eu corri até o quarto dele, q ficava do outro lado da casa. O acordei e ele veio correndo ajudar minha mãe a tirar minha avó dali. A suspenderam e a debruçaram em cima da mesa, desatando o nó do pescoço. A cena seguinte eu nunca conseguirei esquecer. Seus detalhes, texturas, cheiros, cores e sentimentos, sempre estão presentes na minha mente desde então. A mão enorme e negra do meu avô dentro da boca da minha avó, puxando aquela língua descorada para fora de sua garganta. E ela então sobreviveu, como sempre sobrevivia aos mais cruéis sofrimentos q ela mesma se fazia passar. Naquela mesma madrugada, ela sentou na minha cama e, em prantos, me prometeu q nunca mais tentaria tirar sua própria vida, me pedindo desculpas.
Durante muito tempo eu não pensei naquele fato. Não fiquei traumatizada com aquilo, no sentido de q dei tanta importância ao ocorrido quanto uma criança de 7 anos daria a algo q não fosse brincar no quintal, brincar de circo com os cachorros, subir em árvores e andar de bicicleta. Mas todos os dias da minha vida, desde então, pensava como será q era morrer. Claro, me questionava acerca do q aconteceria, para onde eu iria, se de fato existia um deus q morava no céu e era bem barbudo e vestia um vestidão com sandalinhas hippies de couro iguais às q minha mãe gostava. Mas, sobretudo, pensava na sensação de morrer. O q meus sentidos me diriam no exato momento em q eu passasse de viva para morta? E minha consciência, ainda estaria ativa depois q meu cérebro não mais funcionasse? Foi a primeira vez q descordei de Decartes, acreditando q não existia mente sem cérebro. E q, definitivamente, não havia alma. Foi então q, alguns meses depois, me vi segurando a enorme e enferrujada faca de churrasco q sempre ficava no parapeito da janela da cozinha (e q, geralmente, era usada para abrir os saquinhos de leite), com a nítida intenção de me cortar os pulsos para descobrir, afinal, como era morrer. Não sei como tomei conhecimento desse "método" de se cometer suicídio, mas ele me parecia o mais prático de todos. Larguei a faca quando ouvi os passos do meu avô em direção à cozinha, e acho q fiquei muito tempo sem a idéia de me matar, embora a curiosidade ainda estivesse em mim sempre.
Acho q sempre ver a minha avó doente, com tantos problemas e tanta gente preocupada com ela, de alguma forma, era aquilo q significava ser amada (embora, olhando agora, eu ache q ela não era amada). E criei um desejo quase fatal por ser como ela - o q significava para mim, na época, ser amada e ter a atenção de todos.

Infância

Lembro-me de poucos detalhes sobre a minha infância. As poucas lembranças q tenho são pequenos flashes, fragmentos de situações. Minha lembrança mais antiga é do meu avô me carregando no colo da garagem para dentro da casa, pela porta dos fundos, e deixando meu carrinho na garagem vermelha (como o pullover dele era vermelho). Pelo q minha mãe conta, o carrinho foi roubado quando eu tinha seis meses de idade, portanto esse flash é anteior a isso. Obviamente, pode ser apenas uma das lembranças q eu criei, de coisas q nunca aconteceram, para - talvez - preencher a vida com um pouco de realidade (ironicamente, uma realidade inventada).
Lembro-me do quintal de chão de cimento, da varanda vermelha voltada para esse quintal (q depois o meu avô construiu o q seria a sala de estar da parte da casa q era reservada a mim e à minha mãe), dos cães da minha infância (um certo pastor alemão q talvez eu só me lembre pq o vi numa foto). Com cerca de uns 4 anos eu fui morar com a minha mãe em uma casa alugada, q ficava relativamente perto da casa dos meus avós. Lembro-me de empilhar uma cadeira emborcada sobre a outra e fazer assim uma "casinha" para meus cães de pelúcia. Lembro-me de ganhar um gato preto (o chamei de Coro), completamente vira-latas, q fazia xixi nas britas do quintal sob o sol e exalava um cheiro de uréia (ou como eu acho q a uréia deve cheirar) além de desfiar com as garras as folhas das plantas da minha mãe. Ela, já não suportando mais meu gato, me esperou viajar com meus primos e, na minha volta, me contou q os primos do meu gato tinham passado pela nossa rua e q ele acreditou ser melhor voltar para a família dele (e então me questionou "Vc não faria o mesmo, no lugar dele?", o q deu uma certa veracidade à história).
Então, quando tinha 6 anos, minha mãe resolveu voltar a morar na casa dos meus avós, para juntar dinheiro para comprar um apartamento para nós duas. Nessa época ela trabalhava como professora de português na fundação educacional, e perto dessa ocasião (imagino eu) ela dava aula para alunos surdos-mudos. Não me lembro ao certo quando, mas ela então passou num concurso para o Tribual de Justiça do DF (em sexto lugar) após quase se matar de tanto estudar. Ela realmente odiava dar aulas.