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Biografia de uma Anônima: Trauma?

Biografia de uma Anônima

Monday, January 15, 2007

Trauma?

De volta à casa de meus avós, continuei vivendo. Gostava de lá, gostava muito do meu avô, tinha certas brigas com minha avó. Aliás, minha avó sempre foi uma pessoa terrivelmente complicada. Só fui entender essa complexidade mais tarde. Certa vez, ela teve uma pneumonia tão forte a ponto de todos os familiares terem certeza de q ela morreria. Ficou, por um tempo, completamente inválida, jogada na cama do quarto dela (pq ela e meu avô, pelomenos depois q eu nasci, não dormiam no mesmo quarto). Além da pneumonia ela sofria de uma depressão acentuada e teve uma fase alcóolatra, pq realmente detestava Brasília (preferia o Rio de Janeiro ou Curitiba - lugares q meu avô avia trabalhado, como mestre-de-obras para a Rabello, e levado a família consigo - onde ela tinha amigas, namorados e farra).
De fato, Brasília é uma cidade entediante. Essa fase de alcoolismo da minha avó deve ter sido muito difícil para toda a família. Mas eu era muito pequena para notar os dissabores da vida e até mesmo o clima negro dentro de casa, estampado nos rostos cansados da minha mãe e do meu avô. Eu brincava com os cães no quintal, tomava banho de mangueira, e isso era tudo. O q me importava era q a minha avó ficava muito mais legal quando estava bêbada (até deixava minha cadela subir na cama!) Acho q, provavelmente por isso, eu ia na rua comprar cervejas para ela, q nessa altura já não costumava mais sair de casa, embora fosse capaz de andar.
Logo fui proibida, pelo meu avô e minha mãe, de ir à "casa da cerveja" comprar bebidas para minha avó, assim como todos os vizinhos foram instruídos a não prestarem esse favor nem emprestar dinheiro à minha avó. Os comércios de bebidas de todo o bairro também foram advertidos q, se vendessem fiado a ela, não esperassem q tal dívida fosse paga. E então lembro de fashes da minha avó muito deprimida (deprimida no sentido patológico mesmo, não qquer tristezinha q as pessoas tendem a chamar de depressão para dar um ar mais severo do q de fato é, talvez para ser aceito melhor pelos outros, talvez como retrato do narcisismo de morte q compõe todos os seres humanos). Ela estava com uma depressão ansiosa, uma depressão desesperada. Foi aí q ela teve algumas experiências com álcool de cozinha misturado com suco de laranja. Mas, passada a fase inicial, ela parecia estar se adaptando à vida sóbria. Exceto talvez por não suportar as reuniões dos Alcóolicos Anônimos, embora minha mãe tirasse grande proveito e alívio das reuniões voltadas aos familiares dos alcóolatras.
Foi então q aconteceu uma das lembranças mais fortes da minha vida e uma das únicas lembranças claras da minha infância. Minha mãe tinha uma fobia patológica de baratas, de forma q ela ouvia os passinhos desses sub-seres, sentia o cheiro delas, e não conseguia dormir. Uma madrugada qquer entre o segundo semestre de 1993 e o primeiro semestre de 1994, quando eu tinha 7 anos de idade, ela não conseguia dormir, mas estava deitada na cama, com medo das baratas. É importante ressaltar q nessa época, na casa dos meus avós, nós dormíamos no mesmo quarto, com as camas lado a lado. Eu já estava dormindo. E então houve um barulho na área verde, q era um cômodo vizinho, como se uma cadeira tivesse sido derrubada no chão. Eu acordei com o barulho, minha mãe foi ver o q era. Na área verde ficavam uma enorme mesa de estudos e de desenhos, uma estante enorme e lotada de livros, o armário e a geladeira, q guardavam todas aquelas besteiras alimentares q crianças de 7 anos adoram comer, como sorvetes, biscoitos e iogurtes. Minha avó, q se tornara diabética (provavelmente em função do alcoolismo), costumava assaltar a geladeira e o armário durante a noite. Eu pensei q era isso o q tinha acontecido naquela noite, e acho q minha mãe também tinha essa esperança. Eu segui minha mãe até o cômodo verde e vi minha avó pendurada pelo pescoço por uma corda amarrada a uma das vigas de madeira q sustentavam as telhas. Ela estava roxa, mas pálida. E ela babava. Minha mãe tentava suspender aqueles mais de 100kg, mas não dava conta sozinha. Chamava pelo meu avô, q como todo surdo de um ouvido, dorme com o ouvido surdo para cima. Como ele não ouvia, eu corri até o quarto dele, q ficava do outro lado da casa. O acordei e ele veio correndo ajudar minha mãe a tirar minha avó dali. A suspenderam e a debruçaram em cima da mesa, desatando o nó do pescoço. A cena seguinte eu nunca conseguirei esquecer. Seus detalhes, texturas, cheiros, cores e sentimentos, sempre estão presentes na minha mente desde então. A mão enorme e negra do meu avô dentro da boca da minha avó, puxando aquela língua descorada para fora de sua garganta. E ela então sobreviveu, como sempre sobrevivia aos mais cruéis sofrimentos q ela mesma se fazia passar. Naquela mesma madrugada, ela sentou na minha cama e, em prantos, me prometeu q nunca mais tentaria tirar sua própria vida, me pedindo desculpas.
Durante muito tempo eu não pensei naquele fato. Não fiquei traumatizada com aquilo, no sentido de q dei tanta importância ao ocorrido quanto uma criança de 7 anos daria a algo q não fosse brincar no quintal, brincar de circo com os cachorros, subir em árvores e andar de bicicleta. Mas todos os dias da minha vida, desde então, pensava como será q era morrer. Claro, me questionava acerca do q aconteceria, para onde eu iria, se de fato existia um deus q morava no céu e era bem barbudo e vestia um vestidão com sandalinhas hippies de couro iguais às q minha mãe gostava. Mas, sobretudo, pensava na sensação de morrer. O q meus sentidos me diriam no exato momento em q eu passasse de viva para morta? E minha consciência, ainda estaria ativa depois q meu cérebro não mais funcionasse? Foi a primeira vez q descordei de Decartes, acreditando q não existia mente sem cérebro. E q, definitivamente, não havia alma. Foi então q, alguns meses depois, me vi segurando a enorme e enferrujada faca de churrasco q sempre ficava no parapeito da janela da cozinha (e q, geralmente, era usada para abrir os saquinhos de leite), com a nítida intenção de me cortar os pulsos para descobrir, afinal, como era morrer. Não sei como tomei conhecimento desse "método" de se cometer suicídio, mas ele me parecia o mais prático de todos. Larguei a faca quando ouvi os passos do meu avô em direção à cozinha, e acho q fiquei muito tempo sem a idéia de me matar, embora a curiosidade ainda estivesse em mim sempre.
Acho q sempre ver a minha avó doente, com tantos problemas e tanta gente preocupada com ela, de alguma forma, era aquilo q significava ser amada (embora, olhando agora, eu ache q ela não era amada). E criei um desejo quase fatal por ser como ela - o q significava para mim, na época, ser amada e ter a atenção de todos.

2 Comments:

Blogger Sonnenlicht said...

Até q ponto esse ato da minha avó não me marcou? Pesquisas afirmam, é sabido, q a presença de um parente ou conhecido de um determinado sujeito se suicida, a probabilidade de esse sujeito tentar a morte é notavelmente aumentada. Será q minha avó me abriu os olhos para morte? Será q ela pode ter alguma culpa em me resultar algum transtorno mental ou será q esses transtornos são genéticos?

5:06 AM  
Blogger Bruno Carlucci said...

"Acho q sempre ver a minha avó doente, com tantos problemas e tanta gente preocupada com ela, de alguma forma, era aquilo q significava ser amada (embora, olhando agora, eu ache q ela não era amada). E criei um desejo quase fatal por ser como ela - o q significava para mim, na época, ser amada e ter a atenção de todos."

Realmente, isso não é amor. Pode ser pena, piedade, mas não é amor.

Não acho que vc deva se concentrar tanto nesse fato como causa do seu estado hj, é claro que contribuiu para vc chegar onde chegou, mas chega uma hora que temos que morrer para o passado. Deixa ir. Sua avó morreu, vc não é mais uma criança em taguatinga. Tudo isso se foi.

11:11 PM  

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