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Biografia de uma Anônima: M.A.D.

Biografia de uma Anônima

Monday, January 15, 2007

M.A.D.

No dia 8 de outubro de 2000, no programa de conversação mIRC, eu estava numas das salas q eu usualmente freqüentar, o #gothic. Comecei a conversar com um cara com nick de Realizer. Ele era profundamente infeliz e solitário, o q me atraía como uma mosca era atraída pelo esterco. Ele dizia não ter esperança, não contar mais com nada. Eu tentava acalmá-lo, dizer q ele tinha a mim (uma estranha q morava longe e q ele só tinha conversado uma vez, pela internet). Ele tinha 21 anos e morava sozinho na Consolação, em São Paulo. Sua mãe morava na Escócia e era casada com um escocês. Seu pai morreu quando ele tinha 5 anos. Ele tentava "não culpar o pai por ter morrido". Não tinha amigos nem familiares. Pouco mais de uma semana depois, estávamos tendo a relação mais íntima e etérea q já tive com alguém. Ele me ensinava coisas. Líamos Nietzsche e discutíamos ocultismo. Ele afirmava q tinha pouco tempo, q já havia aprendido tudo o q um ser humano deveria aprender em vida e q, brevemente, transcenderia. Faltava-lhe apenas aprender uma coisa: o amor incondicional. E era por isso q eu havia aparecido na vida dele, ele acreditava. E quando ele aprendesse a me amar incondicionalmente, sua glândula pineal se abriria e a existência não seria mais útil, então ele se juntaria a Eles (entidades sobrehumanas encarregadas de observar a evolução dos humanos em sua vida terrena). Eu tomava aquelas teorias como verdadeiras e seguia tudo o q ele achava correto. Questionar todas as minhas certezas, nunca estagnar. Ele me pediu q eu nunca me matasse. Eu deveria ser forte e atingir excelência em todos os testes q Eles aplicavam. Cogitei a possibilidade de fugir para SP para conhecê-lo. Ele me enviaria o dinheiro das passagens e eu ficaria na casa dele, só faltava alguma desculpa para dar para a minha mãe. Nós passaríamos alguns dias juntos e eu voltaria para casa. Mas me faltou coragem. Marco Antônio - o Realizer - ficou chateado, mas logo decidiu q viria até Brasília. Dia 18 de novembro, ele chegou em Brasília. Me ligou pela manhã dizendo em qual hotel estava hospedado. Quando cheguei lá e subi até o andar q ele estava (o quinto, pq Marco tinha pala com o número 5, q era 2+3 para ele, e representava a condição humana de dualidade e de plenitude, respectivamente). Ele me esperava no corredor, com a luz do Sol q entrava pela janela atrás dele, fazendo com q a cena tomasse aparência de sonho. Nosso medo era q ele moresse assim q nos víssemos, q ele "transcendesse" quando nos beijássemos. Mas isso não aconteceu, claro. Andei até o final do corredor, onde ele estava e nos abraçamos. Acho q, naquele momento, quem transcendeu fui eu. Ficamos abraçados por um tempão, e nos beijamos. Cara, como eu estava nervosa! Entramos para o apartamento e fizemos sexo por horas, de uma forma muito íntima para duas pessoas q tinham conversado por um mês e dez dias. Ele era extremamente carinhoso e se importava com tudo o q eu dizia, e para mim nada poderia ser mais delicado do q isso. Eu sempre fui extremamente comunicativa, muito verbal, a verborragia em pessoa. E sempre tive a necessidade de ter alguém q prestasse atenção em tudo o q eu faço e digo. No dia seguinte, fomos à casa dos meus avós, para q eles conhecessem o Marco. Acho q foi o único namorado meu q meu avô não fez cara feia. Marco e minha avó conversaram por horas. Minha mãe o achou "metido", ela me disse depois. Mas ele tinha um ar meio etéreo, na verdade. E era incrivelmente bonito. Alto, magro, pele branca e cabelos lisos e pretos na altura do ombro. E extremamente educado, inteligente etc etc etc. Eu não teria adjetivos o suficiente para dizer tudo o q ele era, mas ele era tudo o q eu precisava. Dia 20 de novembro de 2000, aniversário da minha mãe e segunda-feira. Eu e minha mãe fomos almoçar (em comemoração do aniversário dela) na casa da minha avó. Meu avô havia saído para marcar uma consulta para minha avó num hospital psiquiátrico, não chegou a tempo de almoçar conosco. Almoçamos e minha mãe foi trabalhar, e eu, teoricamente, devia ir para a escola. Peguei o dinheiro q meu avô sempre deixava para mim e fui até o centro da cidade, onde ficava o hotel em q o Marco estava hospedado. Nos encontramos na frente do hotel e fomos passear pela cidade. Fomos a um templo, q fica do lado do cemitério, passeamos pelo cemitério, passamos o dia inteiro andando e conversando. Ficou tarde, ele me levou até o bairro da casa dos meus avós, e nos despedimos numa rua perto da praça do DI (ele voltaria para SP naquela mesma noite). No nosso último beijo ele me revelou um segredo: ele nunca havia beijado ninguém antes. Não sei direito o q senti diante disso. Mas fui para casa dos meus avós. Chegando lá, o carro da minha mãe estava parado na calçada (o q era estranho, pois ela não deveria estar lá (eram umas 20 horas). A casa estava cheia de gente (e nunca ninguém recebia visitas), quando me viram no portão foi uma bagunça de gente gritando "A Taís está chegando!" e foi muito confuso. Minha mãe veio até o portão e falou uma frase q nunca vai sair da minha cabeça "Seu avô morreu hoje de tarde, agora entra lá e se esforça para derramar pelo menos uma lágrima". Às vezes penso: o q leva minha mãe a ser tão tosca em momentos tão delicados? Meu avô era uma pessoa incrível, todos da vizinhança o adoravam. Ele sempre fez um papel de pai para mim (principalmente por eu não ter tido pai), sempre me mimava, me dava coisas, me protegia quando minha mãe queria me bater... Mas eu não chorei. Não derramei a lágrima q era tão importante para minha mãe. Pelo contrário, eu fiquei perplexa por muito tempo. Só queria saber como era morrer. Tentava entender como era esse negócio de um dia estar vivo e, no outro, não está mais e todos têm q se organizar para fazer as coisas q vc costumava fazer (de aguar as plantas até cuidar da minha avó, já muito doente). E, por eu não ter chorado, as pessoas me recriminaram, durante anos. "Ah, mas seu avô era tão bom para vc, pq vc não está triste?" E eu entendi q nem sempre q se está triste se chora e nem sempre q se chora vc está triste. Eu sentia uma dor tão "dilacerante" (essa palavra existe?) q eu não conseguia chorar. Ficava em estado de choque e não conseguia liberar nada daquela enorme tensão q havia dentro de mim. Não sentia vontade de gritar, de me mutilar, de chorar, de xingar as pessoas... nada! Só queria ficar dentro da minha cabeça, para sempre. Logo depois disso, eu e o Marco fomos nos falando menos até perdermos contato. E o clima fúnebre q se instala na casa quando alguém morre também foi passando. Eu só sentia saudades do meu avô e do Marco. O mundo me parecia vazio sem eles. E foi a primeira vez q eu realmente sentia q não tinha mais fôlego para viver, como a minha avó quando tentou a morte.

2 Comments:

Anonymous Anonymous said...

Não nos conhecemos, e ainda não sei o seu nome. Tenho lido seus depoimentos nas duas comunidades sobre Borderline das quais faço parte (embora participe pouco dos debates). Por várias vezes tentei dar início a um relato como este, mas parece que tenho uma certa dificuldade em verbalizar ou mesmo entender o que se passa na minha cabeça.Quem sabe a leitura dos seus textos não me encoraja a finalmente fazer algo parecido? Espero que sim.

Prazer em conhecê-la.
Alice

4:09 PM  
Blogger Trin said...

This comment has been removed by a blog administrator.

5:13 PM  

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