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Biografia de uma Anônima: A obsessão da persona non grata

Biografia de uma Anônima

Monday, January 15, 2007

A obsessão da persona non grata

Na sétima série (ano de 1999, quando eu completei, em julho, 13 anos) eu estava terrivelmente obsessiva pela Gabriela. Observava doentiamente tudo o q ela fazia, tirava fotos dela quando ela não estava olhando. Me aproximava, mas não muito. Só o suficiente para poder ver todas as sua reações, o q ela conversava e com quem, só para estar sempre em contato com aquele objeto-alvo do meu ódio/desejo. Ela cursava a 8ª série, e fazia a Educação Física junto com a minha classe. Eu, q sempre odiara educação física e arrumava mil desculpas e atestados médicos para não participar das aulas (a mais freqüente era alergia ao Sol), agora a tinha como disciplina predileta. Ansiava em vê-la, para odiá-la. Quando ela foi a primeira a colocar um piercing, eu a odiei. E quando ela foi a primeira a pintar as pontas dos cabelos de roxo com violeta genciana, eu a odiei. Durante uma aula de Educação Física, o professor comentou com ela algo sobre a sua irmã (da Gabriela, não do professor). Eu nem sabia q ela tinha uma irmã, mas descobri, ouvindo aquela conversa, q se chamava Daniela e estudava no nosso colégio, cursando a 6ª série. Apenas pela minha obsessão pela Gabriela quis saber quem era sua irmã. Mas, quando a conheci, os céus se misturaram com a terra e eu não vi mais nada. Daniela era o protótipo da perfeição! Então eu resolvi me aproximar dela. E, paradoxalmente, comecei a imitá-la para me tornar tão única quanto ela. A Daniela era metida a riponga e ouvia coisas como Janis Joplin e The Doors, q era o q eu ouvia na infância por influência dos meus primos mais velhos e minha mãe. Então eu comecei a escutar aquilo pq ela escutava. Comecei a me vestir como ela se vestia. Até dread-look no cabelo eu fiz, por ela. Nessa época eu conversava muito com a psicóloga do colégio, Mariléia, q se revelou uma pessoa agradável, carinhosa e confiável. Revelei a ela, certa vez, q eu acreditava nutrir uma paixão pela Daniela. Mariléia disse q era algo normal na minha idade questionar a identidade sexual, me tranqüilizou e foi extremamente amável. Por fim, ficamos amigas, eu e as duas irmãs. Um dia, cerca de dois dias depois da minha conversa com a psicóloga, logo no primeiro horário co colégio, entramos no banheiro, colamos um absorvente no espelho e o sujamos com ketchup. A idéia de fazer isso foi minha (inspirada numa história q minha prima 11 anos mais velha me contou q havia feito em seus tempos de escola) com o único intuito de impressioná-las. Como saímos do banheiro rindo muito do nosso feito, a zeladora do colégio logo desconfiou e foi conferir o banheiro. Imediatamente fomos chamadas à direção. A coordenadora do colégio, Nailde, estava grávida (a sua barriga era tão alta e esquisita q costumávamos falar q ela tinha engravidado de sexo oral, o esperma devia ter-lhe fecundado o estômago) e, com todas aquelas alterações hormonais, havia desenvolvido uma enorme apatia por mim. Nós 3 pegamos uma suspensão de um dia e disseram para mim (e só para mim) q eu só poderia voltar à escola acompanhada da minha mãe, q já estava cansada de ser chamada no colégio, geralmente pq eu falava o q me dava na telha, não respeitava autoridade, questionava tudo demais. Sempre durante essas conversas eu ficava ouvindo alguma funcionária da escola (geralmente a Nailde) dizer para minha mãe quão ruim eu era, enquanto minha mãe se envergonhava da inha existência e se culpava por ter me educado mal. Eu era um fracasso, é o q eu entendia de tudo o q se passava. E isso tudo sem direito de resposta ou justificativa de minha parte. Eu acabava ficando tonta, com náuseas e uma enorme dor na barriga, q mais tarde eu aprendi q se chamava gastrite (e mais tarde ainda aprendi q fazia parte de um fenômeno chamado "somatização"). Naquela tarde, como tudo já estava ferrado mesmo, eu, Daniela e Gabriela fomos à praça do DI, onde elas me apresentaram algumas pessoas (uns malas esquisitos e feios) e bebemos e fumamos maconha. Eu nunca tinha bebido ou fumado maconha na vida. Mas, quando fomos fumar com um desses malinhas escrotos, fingi q era bem experiente no assunto. Como não cometi nenhuma gafe, creio q todos tenham acreditado. A Daniela, q também nunca tinha fumado, tossiu horrores e acho q tirou a atenção do meu próprio embaraço com a droga. Ninguém percebeu q eu estava completamente "alta", lá em casa. De volta ao colégio, a tal reunião me aguardava. Começava a passar mal de antemão. Minha mãe já estava muito irritada, e eu com muito medo dela (sempre tive medo da minha mãe). Aquilo estava se tornando habitual, por mais irritada q minha mãe ficasse e por mais enjoada q eu me sentisse. A conversa foi igual a todas as outras, na verdade. Até a hora q me pediram para sair da sala para q elas - Nailde e Mariléia - conversassem a sós com a minha mãe. Se fosse hoje em dia, eu nunca permitiria q um assunto sobre a minha pessoa fosse tratado na minha ausência, se tivesse esse poder. Mas naquela época, naquela situação, morrendo de medo da minha mãe, não tive outra escolha: deixei a sala. Os minutos q se passaram com minha mãe lá dentro da sala ouvindo sei-lá-o--q, foram terrivelmente ansiosos. Sentia sensações físicas me percorrendo todo o corpo e logo eu tive a sensação d q ia desfalecer, mas então minha mãe saiu da sala, e eu nunca mais a vi tão brava. Ela me arrastou pelos cabelos até o carro, onde ela começou a chorar e esmurrar o volante. Até aí eu não sabia a gravidade do q havia sido dito e a proporção q isso teria na minha vida. Foi q então minha mãe começou a verbalizar o q estava acontecendo. A doce Mariléia havia contado para minha mãe toda a minha conversa sobre minha paixão pela Daniela. E disse q "pessoas com essa índole", ou seja, lésbicas, "não seriam toleradas naquela instituição". Disse também q eu estava "convidada a me retirar". Eu estava sendo expulsa do colégio q eu estudava há 7 anos. Eu havia sido profundamente traída pela psicóloga q eu julgava ser confiável (o q, durante os anos seguintes, me impediria de confiar em outras pessoas, em especial em psicólogos). Aquela foi a última vez q fui ao meu antigo colégio. Foi a primeira vez q não pude contar com a compreensão e o apoio da minha mãe. Daniela e Gabriela não foram expulsas, obviamente, pois não eram elas as "lésbicas" da história. E foi assim q eu descobri a minha bissexualidade.

1 Comments:

Blogger Unknown said...

Essa psicologa de profissional nao tem nada. Eu nunca vi tamanho desrespeito....sou psicologa e jamais faria isso!!! Tenho certeza que muitos profissionais serios também não.

11:24 AM  

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