Aborto e oportunidade perdida
Eduardo dormia na minha casa todos os finais de semana. Naquele tempo, minha mãe permitia q os meus namorados dormissem na minha cama, com a porta trancada. E, dessa forma, comecei a fazer sexo com freqüência. Foi a primeira vez q sentia atração por alguém, de fato. Às vezes, no DI, os nossos amigos faziam piadas pois nós costumávamos nos beijar e começar a morder os lábios um do outro, não como namorados usualmente fazem como demonstração de desejo, mas dilacerando um ao outro, provocando sangramentos e engolindo a mistura de nossos sangues. Era intenso e, como eu sempre quis, quebrou meu tédio. Transávamos na rua, com minha mãe em casa, de qquer jeito e a toda hora. Como não tinhamos outro método contraceptivo, usávamos camisinha. Só q, em uma dessas transas loucas, depois q ele gozou e tirou o pau de dentro de mim, apenas o anel da camisinha estava na base de seu pinto. O resto, em frangalhos, estava dentro de mim, misturado com a porra q derramava abundante. Eu estava, literalmente, fodida. De acordo com os meus cálculos, devia estar no meu período fértil. Eduardo se desesperou completamente. Naquela noite ele não falou mais comigo, como se o q tivesse acontecido fosse culpa minha, e decidiu dormir num colchão no chão, ao lado da minha cama. Eu estava preocupada demais para dormir. Olhava para ele naquele sono profundo durante a madrugada. Acariciei seu rosto. Ele segurou a minha mão e beijou-a, virando para o lado abraçado ao meu antebraço. Ele estava dormindo. Naquela madrugada eu pedi a proteção de todos os demônios q eu gostava de fantasiar q existiam e q tomavam conta de mim, me amavam. Quando amanheceu, Eduardo ainda não estava falando comigo. Fui ao banheiro e expeli um grande coágulo de sangue. Creio q era impossível q aquilo fosse um feto, dado o pouco tempo desde a possível concepção. Mas quis acreditar q era um aborto. Os meus demônios me protegiam e me amavam. Não contei nada ao Eduardo, q saiu sem se despedir. Eduardo jogava RPG, o q despertava minha curiosidade, A possibilidade de inventar histórias e viver personagens sempre me cativava. Mas ele não jogava com mulheres, pois elas eram "muito apegadas aos detalhes, impediam a ação" para ele. Em outras palavras, ele estava se lixando para a história e para os personagens q tanto me encantavam, o q ele gostava era a porradaria. No dia seguinte ao episódio da camisinha, encontrei-me com um amigo nosso do DI, q também jogava RPG. Comentei a visão de Eduardo com esse amigo, o Bruno, q disse q era um absurdo pois "jogar com menina é bem mais legal, pq elas se prendem à narrativa e não só nas lutas". Dias antes eu havia notado o Bruno lendo Edgar Allan Poe, o q já tinha chamado minha atenção. Mas aquilo era demais. Como não me apaixonar com alguém com uma opinião dessas? Bruno tinha uma beleza diferente de tudo: Era excessivamente alto e magro (as costas se encontravam diretamente com as pernas, sem vestígio algum de bunda no meio do caminho), usava óculos fundo-d-garrafa (o q lhe dava aquele velho chame de intelectual, num lugar onde ninguém lia nem bula de remédio) e um cabelo simplesmente incrível, loiro e ondulado, comprido até a altura da não-bunda. Ele era sério, embora fosse divertido. Era amigável com todos, inclusive com os punks q queriam cortar seu cabelo para vender. Tentando me insinuar muito discretamente, contei-lhe o q havia acontecido no dia do aborto e disse q tinha terminado com o Eduardo. Ele ficou chocado com a falta de sensibilidade do amigo e eu fiquei sensibilizada com a sensibilidade dele. Realmente não me lembro de como começamos a nos beijar, só lembro de ele ter ficado tão perto de mim aponto de eu não saber onde estavam as minhas fronteiras e de ele me implorar para não parar de beijá-lo. E eu não queria parar! Mas sempre fui muito verborrágica e sentia vontade de falar coisas durante os beijos. Então ele suplicava q eu voltasse ao beijo. Era sabido q o Bruno tinha problemas com seus pais, mas ele foi a primeira pessoa em quem eu vi o sofrimento cintilar nos olhos. Ele era extremamente solitário e me desejava por perto para q eu o salvasse de si mesmo. Naquele momento, a única coisa q eu queria era entrar dentro da consciência do Bruno para q nenhum de nós dois sentíssemos mais a solidão q pulsava a cada sinapse de nossas mentes. Eu queria preenchê-lo plenamente. Nunca havia sentido tamanha devoção por alguém quanto senti pelo Bruno naquela noite. O sexo se tornou obsoleto e a forma com q ele apertava meu corpo contra o dele, com um desespero tão imenso, me fazia gemer não de tesão, mas como se minhas espectativas em relação ao sentimento de morrer estivessem se concretizando. Mas essa plenitude durou pouco. O Eduardo, q não sabia q eu tinha terminado com ele (nada foi verbalizado, na verdade), disse para o Bruno q ainda estávamos juntos. O Bruno, q era uma pessoa acostumada a ser traída, acreditou. Disse-me q não queria mais me ver nem ter notícias minhas e não me deu chance nenhuma de explicar. Então eu notei q ele nutria um sentimento (provavelmente uma esperança) por mim. E eu destruí aquilo, mesmo sem ter feito nada. E notei q eu amava ele, daquele jeito q os budistas descrevem o amor. Em cólera, nunca mais quis ver o Eduardo na minha frente, e assim foi. Muitas vezes depois eu vi o Bruno, q não admitia me ouvir e, provavelmente, se esqueceu de mim. Por muito tempo chorei por isso, pela chance perdida.

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